quinta-feira, 4 de março de 2010

CarBoy

Estive pensando nos fluxos e nos tipos do trânsito. Homem engravatado, cozinhando suas próprias carnes; felizes meninas cantarolando dentro de vidros escuros; deve ser axé, senhora cheirando o volante, casal constrangendo o semáforo, e o mais esvoaçante de todos, garotão cabelos bem cortados, camiseta apertada, bíceps trabalhados, ouvindo um som sertanejo que não reconheci.

Era ele, autêntico representante do mundo rural, camionete do ano, óculos de marca, costeletas afiladas, pulseirinha metálica e um ar bem moderno, o rural se divorciou daquele garoto, ele não é um caipira e nem cowboy. O carro com seus inúmeros cavalos é a extensão do seu corpo, como uma fusão indistinta, detalhes cromados, objeto pendurado no retrovisor, caixas de som que derramam pelas janelas. Tudo no carro é assinatura deste moço da cidade, pobre campo que padece.

Há muito que o caipira goiano não se reconhece em seus filhos, este CarBoy esparrama suas características em quase todos os movimentos do trânsito. Talvez ainda guarde um acentuado arranhar de garganta no falar, talvez até tenha uma proximidade com seus peões de fazenda ou de sua fazenda horizontal, mas estas expressões autênticas e belas do rural parecem cessar por aí.

Num pastiche banal ele experimenta sua própria cidade, com trilha sonora para um quarteirão inteiro ouvir. Imagino que do alto de sua camionete importada ele não consiga ver as meninas alegres dançando, nem mesmo senhora esperançosa para entrar em sua frente e nem deve ter ouvido o palavrão que desferi no ímpeto de justiça. Acho que era o som, ou talvez o eco, ou melhor, o oco.